A ênfase que a poesia dá a vida
Preenche bem mais que o vazio de nossos dias;
Preenche bem mais que a rotina e suas sutilezas.
O poeta, uma vez vi, é como o menino que risca o chão...
Já viu falar num mestre de poetas?
Um nazareno que conversava tranquilo e rabiscava a terra...?
O poeta – gosto de tal termo – pega as palavras,
Essas invenções malucas que fizemos juntos,
E as rearranja.
Não é querendo ser de discurso bonito,
Uma verborragia que ninguém entenda,
Muito menos, creio, um discurso hipócrita.
Ele fala o que entendemos de forma diversa,
Ou não queremos entender.
Fala daqueles instantes que mexem conosco.
E ele fala, ele gesticula, ele cala,...
A poesia flui em cores, traços, imaginações...
Canções que tocam, aquela frase de filme,
A pintura que espanta, o riso.
Ou ainda a lembrança saudosa da infância,
Do primeiro saboreio de algodão doce,
Do cheiro da comida da vovó,
Da quentura da mãe,
Da primeira volta na roda gigante,
Do primeiro abraço, beijo, palavra...
Palavra que o poeta traduz,
Palavra que o poeta vive,
Palavra que o poeta lhe entrega,
Doa-lhe, singelamente,
Como dou a vocês nessa poesia,
Não sendo eu grande poeta,
Como um abraço e aperto de mão fortuito,
Palavras, mais que palavras:
Sentidos.
Dou-lhe os sentidos de que,
Querendo ser poeta,
Quero mais ser gente,
E explodir humanidade
Com os defeitos teimosos,
Que se escandalizam em mim,
Humanamente amando,
Errando,
Falando besteiras...
Faço essa poesia solta para vocês,
E a entrego publicamente
Como as mãos que se abrem para libertar
Um pássaro cativo.
Benedito Gomes Rodrigues